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O conflito entre Chespirito e Carlos Villagrán pelos discos

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O ano era 1976. Chapolin e Chaves já eram um enorme sucesso e o elenco fazia shows, turnês, publicidade...e aí surgiu a ideia de gravar um disco com o elenco. No entanto, isso acabaria gerando uma briga entre Chespirito e Carlos Villagrán.

Num texto publicado na revista "Notitas Musicales" em 1977 (mas que se referia aos acontecimentos do ano anterior), o colunista Armando Miranda Molina falou sobre isso e deu uma ideia de como era esse conflito nos bastidores. Segue o link com o texto original em espanhol, publicado pelo Blog La Chicharra:

https://lachicharrabrasil.blogspot.com/2010/06/

Versão traduzida do texto:

A Nova Onda - por Armando Miranda Molina

1 de janeiro de 1977

O disco, sempre aberto a novas surpresas, nos trouxe uma surpresa no fim de 1976. Os comediantes têm entrado no meio da comunicação com muitos bons resultados. Já recordaram o impacto que o Chapolin Colorado causou e o que, atualmente, conseguiram o Quico e o Eduardo II. Talvez, por sair do comum, tais gravações se destacaram ou, talvez, porque a dose de bom humor que tem incentivou o público a dar o seu apoio.

Mas, contra tudo que se pode supor, nem tudo é piada e alegria entre os cômicos. Também há neles um lado amargo, pelo visto. Isso ficou claro quando surgiu uma discussão entre os companheiros Roberto Gómez Bolaños e Carlos Villagrán. Isto é, entre o Chaves e o Quico. E tudo, ao que parece à primeira vista, por uma boa dose de ciúmes profissionais.

Roberto Gómez (“Chespirito) tem reclamado de Carlos Villagrán (Quico) o uso e exploração do seu personagem. Porque, ainda que Villagrán tenha feito dele uma criação, não foi ele, certamente, quem o criou e quem, graças à concepção de sua personalidade, fez os roteiros do personagem; e a permanência de Villagrán na série televisiva possibilitaram o surgimento e notoriedade dele. É, de forma resumida, um personagem mais criado por Chespirito e não se pode fazer uso do personagem sem seu consentimento porque pertence ao roteirista.

No entanto, tal personagem se converteu em um “cavalo de batalha” de Carlos Villagrán e ele está disposto a gozar dos benefícios que pode obter por interpretar esta figura. E, ainda que em certa medida tenha razão de fazê-lo, há que assinalar que, do ponto de vista legal, não é de todo correto prosseguir. Para fazer uso de algo que não nos pertence, tem que pedir permissão!

E talvez seja este o ponto onde começaram as dificuldades. Porque Chespirito, na conversa que há pouco tivemos com ele, nos comentou que, apesar de algumas pessoas tentarem jogá-lo contra o Quico alegando que ele está “roubando a cena”, ele não quis dar ouvidos para tais insidiosos comentários e que, como sempre, seguiria escrevendo para o sucesso do seu suposto rival porque, no final, o sucesso do Quico era o do próprio Chespirito.

O que, conhecendo a gentil forma de ser de Roberto Gómez, faz pensar que essa sua decisão era (e é) honesta. Mas ocorreu que o Quico, sentindo-se plenamente dono do personagem, fez uso dele sem consultar Chespirito e, como era de se esperar, encheu de raiva o seu proprietário. Se o Chaves não sente ciúmes dele pelo seu desenvolvimento na televisão, por que sentiria pelo seu companheiro também ter gravado um disco? E, não sendo uma coisa nem outra, teria que pensar então que esse desacordo tem uma base de caráter econômico: o produto da exploração do Quico deveria ser compartilhado porque, se de um é a criação/trabalho, do outro é a imagem. Chespirito o criou para beneficiar-se e, consequentemente, talvez espere receber uma participação/quantia por esse disco. Mas será que o Villagrán quer dar isso a ele?

Este assunto, caso se complique, pode gerar consequências desagradáveis. Se um aperto levar a uma ruptura entre ambas as personalidades, significa que o Quico sairá do programa, desaparecerá dessa constelação artística. Ninguém poderia substituí-lo e o programa Chaves sofreria com a ausência de um grande atrativo. Carlos se veria privado da identidade com a qual se fez valer o seu trabalho e teria que criar um novo personagem, o que equivale, nem mais nem menos, a começar de novo. Só que desta vez sem a oportunidade de se apresentar no programa mais popular da televisão mexicana. O que acontecerá?

Seria uma lástima que uma das equipes mais competentes do ambiente artístico (em especial, o cômico) começasse a se diluir por uma mera mesquinha. O sucesso de cada um dos componentes dessa equipe se respalda no bom desempenho que cada um dos seus companheiros faz. Se faltam peças, ou as que estão não são adequadas, seguramente a máquina deixará de funcionar. Todos, portanto, se verão prejudicados. Chespirito tem o direito de que se respeitem os seus direitos de autor. O Carlos tem o direito de se projetar pessoalmente. Mas algum deles tem o direito de jogar por terra a magnífica imagem do conjunto que criaram? Tomara que a qualidade humana de ambos seja o que resolva esse litígio desagradável.

Molina acertou na sua previsão de que o Quico iria sair!

Mas como foi exatamente essa briga em torno dos discos? Vamos ver agora as versões dos dois principais envolvidos.

Versão de Chespirito

Chespirito contou a sua versão em seu livro biográfico, "Sem Querer Querendo: Memórias". Segue as principais partes, retiradas do livro:

“A companhia Polygram me procurou com a intenção de fazer algo que a mim não havia passado pela cabeça: gravar um disco. [...] Diante da insistência da gravadora, eu disse que aceitava com uma condição: que meus companheiros também cantassem, o que aceitaram imediatamente. Isso foi uma medida inteligente porque entre meus companheiros havia alguns que cantavam muito bem, como era o caso do Rubén Aguirre, Edgar Vivar, Ramón Valdés e, destacadamente, Florinda Meza. [...]

Dei a notícia aos integrantes do grupo, que manifestaram um grande entusiasmo pelo projeto, com exceção de Carlos Villagrán, que nos disse que ele já tinha uma oferta similar (e pessoal) por parte de uma outra gravadora. Essa falta de integração parecia ir contra o interesse geral, mas acabei por dar meu consentimento”.

Provavelmente, Chespirito ficou chateado pelo Villagrán ter assinado um contrato de exclusividade com outra gravadora usando um personagem do programa de Chespirito, o Quico, sem avisar ninguém antes. Isso impossibilitou que o Quico estivesse nos discos que o elenco fez. Mas Chespirito deixou o Carlos fazer os seus discos solos.

Versão de Carlos Villagrán

Já Carlos Villagrán deu a versão dele sobre os discos numa entrevista para o youtuber Marcelo Rodríguez, dos Estados Unidos, em 24 de outubro de 2020. Segue abaixo:

“Começaram a vender como loucos os discos. Eu fui o primeiro que procuraram para fazer discos. A gravadora Orfeón me procurou e Chespirito não me deixou, ele disse para eu não fazer o disco porque iríamos fazer um disco todos juntos. Então eu disse a gravadora Orfeón: "não, não posso fazer o disco com vocês porque vou gravar com Chespirito". Ele disse que iríamos fazer um disco todos juntos, toda a vizinhança. E foi mentira! Ele gravou dois discos solos, um do Chapolin e outro do Chaves! Então a gravadora EMI Capitol me procurou para gravar um disco e desta vez, sem avisar Chespirito, eu gravei o disco. Chespirito tinha registrado todos os personagens como dele e parece que ele processou a EMI Capitol e o processo não continuou. Ele me disse: “Quando acabar o seu contrato com a EMI Capitol, te quero conosco para gravarmos um disco todos juntos”. Eu disse: “OK, quando acabar meu contrato vou para a gravadora Poly”. Uma semana depois, me chamaram na gravadora EMI Capitol. Estava o Chamín Correa, foi ele quem me dirigiu para gravar o disco. E tinha outras pessoas, eram cerca de oito pessoas. O Chamín Correa me disse: “quero te dar um presente para que você fique feliz na EMI Capitol”. Ele me deu um cheque de 165 mil dólares para que eu ficasse (na gravadora)! Então eu tirei uma cópia, levei para o Chespirito e disse: “Chespirito, veja! Não posso ir contigo! Veja o quanto vou ganhar (na EMI Capitol)!”. Ele disse: “Esse dinheiro você tem que dar para todo o grupo!”. Aí começaram os problemas! Ele juntou todo o grupo num escritório do Enrique Segoviano e disse: “Carlos, esse dinheiro você tem que dar para todo o grupo!”. Perguntei: “Por que Roberto?”. Ele: “porque graças a um Chaves se fez o Quico, graças a uma Chiquinha se fez o Quico, graças a um Seu Madruga se fez o Quico...” Eu disse: “então você também tem que me dar o dinheiro dos dois discos que você fez porque graças a um Quico se fez o Chaves”. Ele se levantou e disse: “Mas o Chaves e o Quico são meus! Sou rebelde e não te dou nada”. E não lhe dei nada, haha.”

Esse é o vídeo da entrevista em que o Villagrán conta essa versão (a partir dos 11:31):

Chespirito gravou um disco solo nessa época (não dois). Foi o disco “Chespirito e Suas Canções”, lançado em 1976 pela gravadora Fontana Records.

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Ainda em 1976, o Carlos lançou seu primeiro disco solo com a EMI Capitol, "Quico".

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Em 1977, o elenco de Chaves lançou o seu disco com toda a turma, menos o Quico, como é possível ver pela capa.

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Até 1979 o Carlos lançou mais quatro discos solos, enquanto Chespirito e o elenco lançaram mais dois. E o Carlos saiu do elenco nesse ano. A relação desgastada com Chespirito e o elenco (incluindo esse conflito envolvendo os discos) pode ter contribuído para a saída do Villagrán.

Editado por JoãoB

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  1. Doutor Chimoltrúfio
    Doutor Chimoltrúfio respondeu ao tópico de Valette em Exibições Internacionais
    Chapolin: México - Sábado, 07 de fevereiro de 2026 Horário de Brasília 17:30 - Proibido pisar no piso (1977) OBS: O episódio acima já havia sido apresentado pelo canal em 26/07/2025. 17:59 - Obedeça às ordens do médico! / Uma injeção difícil (1977) OBS: O episódio acima já havia sido apresentado pelo canal em 26/07/2025. 18:33 - Marreta Biônica calibre 45 (1977) 19:01 - Um paciente, pelo amor de Deus! / Casamento com bruxa, não! (1977) OBS: O episódio acima já havia sido apresentado pelo canal em 26/07/2025. 19:32 - O rajá / O gigante (1977)
  2. JoãoB
    O ano era 1976. Chapolin e Chaves já eram um enorme sucesso e o elenco fazia shows, turnês, publicidade...e aí surgiu a ideia de gravar um disco com o elenco. No entanto, isso acabaria gerando uma briga entre Chespirito e Carlos Villagrán. Num texto publicado na revista "Notitas Musicales" em 1977 (mas que se referia aos acontecimentos do ano anterior), o colunista Armando Miranda Molina falou sobre isso e deu uma ideia de como era esse conflito nos bastidores. Segue o link com o texto original em espanhol, publicado pelo Blog La Chicharra: https://lachicharrabrasil.blogspot.com/2010/06/ Versão traduzida do texto: Molina acertou na sua previsão de que o Quico iria sair! Mas como foi exatamente essa briga em torno dos discos? Vamos ver agora as versões dos dois principais envolvidos. Versão de Chespirito Chespirito contou a sua versão em seu livro biográfico, "Sem Querer Querendo: Memórias". Segue as principais partes, retiradas do livro: “A companhia Polygram me procurou com a intenção de fazer algo que a mim não havia passado pela cabeça: gravar um disco. [...] Diante da insistência da gravadora, eu disse que aceitava com uma condição: que meus companheiros também cantassem, o que aceitaram imediatamente. Isso foi uma medida inteligente porque entre meus companheiros havia alguns que cantavam muito bem, como era o caso do Rubén Aguirre, Edgar Vivar, Ramón Valdés e, destacadamente, Florinda Meza. [...] Dei a notícia aos integrantes do grupo, que manifestaram um grande entusiasmo pelo projeto, com exceção de Carlos Villagrán, que nos disse que ele já tinha uma oferta similar (e pessoal) por parte de uma outra gravadora. Essa falta de integração parecia ir contra o interesse geral, mas acabei por dar meu consentimento”. Provavelmente, Chespirito ficou chateado pelo Villagrán ter assinado um contrato de exclusividade com outra gravadora usando um personagem do programa de Chespirito, o Quico, sem avisar ninguém antes. Isso impossibilitou que o Quico estivesse nos discos que o elenco fez. Mas Chespirito deixou o Carlos fazer os seus discos solos. Versão de Carlos Villagrán Já Carlos Villagrán deu a versão dele sobre os discos numa entrevista para o youtuber Marcelo Rodríguez, dos Estados Unidos, em 24 de outubro de 2020. Segue abaixo: “Começaram a vender como loucos os discos. Eu fui o primeiro que procuraram para fazer discos. A gravadora Orfeón me procurou e Chespirito não me deixou, ele disse para eu não fazer o disco porque iríamos fazer um disco todos juntos. Então eu disse a gravadora Orfeón: "não, não posso fazer o disco com vocês porque vou gravar com Chespirito". Ele disse que iríamos fazer um disco todos juntos, toda a vizinhança. E foi mentira! Ele gravou dois discos solos, um do Chapolin e outro do Chaves! Então a gravadora EMI Capitol me procurou para gravar um disco e desta vez, sem avisar Chespirito, eu gravei o disco. Chespirito tinha registrado todos os personagens como dele e parece que ele processou a EMI Capitol e o processo não continuou. Ele me disse: “Quando acabar o seu contrato com a EMI Capitol, te quero conosco para gravarmos um disco todos juntos”. Eu disse: “OK, quando acabar meu contrato vou para a gravadora Poly”. Uma semana depois, me chamaram na gravadora EMI Capitol. Estava o Chamín Correa, foi ele quem me dirigiu para gravar o disco. E tinha outras pessoas, eram cerca de oito pessoas. O Chamín Correa me disse: “quero te dar um presente para que você fique feliz na EMI Capitol”. Ele me deu um cheque de 165 mil dólares para que eu ficasse (na gravadora)! Então eu tirei uma cópia, levei para o Chespirito e disse: “Chespirito, veja! Não posso ir contigo! Veja o quanto vou ganhar (na EMI Capitol)!”. Ele disse: “Esse dinheiro você tem que dar para todo o grupo!”. Aí começaram os problemas! Ele juntou todo o grupo num escritório do Enrique Segoviano e disse: “Carlos, esse dinheiro você tem que dar para todo o grupo!”. Perguntei: “Por que Roberto?”. Ele: “porque graças a um Chaves se fez o Quico, graças a uma Chiquinha se fez o Quico, graças a um Seu Madruga se fez o Quico...” Eu disse: “então você também tem que me dar o dinheiro dos dois discos que você fez porque graças a um Quico se fez o Chaves”. Ele se levantou e disse: “Mas o Chaves e o Quico são meus! Sou rebelde e não te dou nada”. E não lhe dei nada, haha.” Esse é o vídeo da entrevista em que o Villagrán conta essa versão (a partir dos 11:31): Chespirito gravou um disco solo nessa época (não dois). Foi o disco “Chespirito e Suas Canções”, lançado em 1976 pela gravadora Fontana Records. Ainda em 1976, o Carlos lançou seu primeiro disco solo com a EMI Capitol, "Quico". Em 1977, o elenco de Chaves lançou o seu disco com toda a turma, menos o Quico, como é possível ver pela capa. Até 1979 o Carlos lançou mais quatro discos solos, enquanto Chespirito e o elenco lançaram mais dois. E o Carlos saiu do elenco nesse ano. A relação desgastada com Chespirito e o elenco (incluindo esse conflito envolvendo os discos) pode ter contribuído para a saída do Villagrán.
  3. E.R
    E.R respondeu ao tópico de Raphael em Fórum Único Chespirito
    É um bom episódio o "Pior a emenda que o solado", tem até a presença do Godinez.
  4. HOMESSA
    HOMESSA respondeu ao tópico de Douglas Reis em Fórum Social
  5. Medeiros CH
    Medeiros CH respondeu ao tópico de sPiDeR em Todos Atentos Olhando pra TV
    O compilado do Desfile de Natal com um bastidor raro do Walter Lantz (em inglês naturalmente) que estava disponível apenas no canal da WildBrain antes do encerramento do contrato dela com a Universal

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