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CINEMA


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Chapolin Gremista

Poderia ter uma categoria de dublês também.

 

 

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Filmes bons… filmes ruins…

Discutindo o gosto no cinema

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Na arte, costuma se dizer, gosto não se discute… nos discursos da crítica, contudo e acima de tudo, discute-se o gosto. Dessa maneira, na arte cinematográfica, o que seria um filme ruim? Em princípio, isso dependeria do gosto… o gosto, entretanto, depende do quê? Em verdade, o gosto não é uma entidade metafísica, pairando na consciência humana, da qual emanaria nossas vontades; tampouco, o gosto se revela algo vindo do espírito, coisa particular, própria de cada indivíduo, independentemente de quaisquer determinações sociais, portanto, políticas.

Não se pretende, em seguida, revolver assunto tão espinhoso quanto o gosto… para participar dessa discussão, todavia, começando por “gostar” com sentido de “saborear”, vale a pena indagar quem gosta de comidas exóticas, por exemplo, a comida japonesa. Antes de tudo, seria a comida japonesa, com seus tradicionais peixes crus, comida exótica? No Brasil, atualmente, isto é, nos 2020, a cozinha japonesa talvez já tenha se popularizado, a ponto dessa culinária ganhar, inclusive, especificidade, com características bastante distintas da tradicional, feita no Japão; nos 1990, entretanto, muitos estranharam comer salmão, atum e peixe branco sem cozinhar ou grelhar. Para gostar, portanto, torna-se necessário conhecer e, a partir do discernimento, aprender a apreciar; do sabor da comida para a beleza humana, trata-se do mesmo procedimento.

Na contemporaneidade, contempla-se a beleza com critérios plurais; se antes, em comerciais de roupas íntimas ou de banho, expressava-se somente a beleza dita clássica, com formas longilíneas, ditadas por corpos magros e com pele predominantemente branca, no presente, expressam-se corpos variados, buscando a inclusão de todos, inclusive, deficientes físicos, tais quais a modelo italiana Chiara Bondi, a quem falta a perna esquerda abaixo do joelho.

A atriz Sônia Braga, modelo indiscutível de beleza, já foi, em tempos idos, considerada uma mulher, se não feia, ao menos esquisita. Poucos se lembram, mas na telenovela “Fogo sobre terra”, de Janete Clair, que foi ao ar em 1974, na Rede Globo, um dos primeiros trabalhos de Sônia Braga na televisão, ela viveu o papel de moça provinciana, professora de uma cidade do interior do então estado do Mato Grosso, cujas características eram ser acanhada e feiosa; apenas no ano seguinte, em 1975, ela se impôs, mediante modelos brasileiros de beleza, como uma das mulheres mais bonitas do mundo, ao viver a protagonista na telenovela “Gabriela”, inspirada no romance “Gabriela, cravo e canela” de Jorge Amado, adaptada por Walter Goerge Durst para a mesma emissora de televisão.

Ora, falando de modelos e atrizes, aproximamo-nos do cinema; nesse tópico, como distinguir os filmes bons dos ruins? Há vários critérios para tanto… vamos nos ocupar de dois filmes, isto é, “A caçada do futuro”, 1982, de Brian Trenchard-Smith, e “No umbral da China”, 1957, Samuel Fuller; os critérios se resumem à consciência política e à semiótica, enfocando seja a trama seja a expressão plástica. O primeiro filme é australiano; na história, num futuro próximo, o país se encontra dominado pelo fascismo, com forte repressão policial, justiça persecutória e infestado por campos de concentração para prisioneiros políticos, que variam de guerrilheiros armados a inocentes, detidos por erros ou intolerância de juízes ou delegados. Em um desses campos, o diretor e alguns burgueses desocupados se divertem caçando seres humanos selecionados entre os presidiários, tratando-se da variação de um tema recorrente em filmes, em geral, de terror e ficção científica; na história, em meio a cenas de sexo, lutas, monstros mutantes, tiroteios, explosões e mortes violentas, um revolucionário, especializado em invadir meios de comunicação de massa, ajuda uma trabalhadora, presa injustamente, a sobreviver durante uma daquelas caçadas, nas quais se configura, explicitamente, a luta de classes, na correlação “opressão / burguesia e aparato repressor” versus “liberdade / revolucionários e trabalhadores”.

No final do filme, o casal protagonista, além de triunfar sobre os caçadores, provoca uma revolução armada no campo de concentração; contudo, longe de tudo se resolver em casamentos, risos e felicidade geral, ou seja, diferentemente do final burguês, característico da indústria cultural, a luta continua, pois, apesar da derrota dos diretores do campo, não se venceu a repressão política, mostrando que a verdadeira vitória contra a burguesia e seu aparato policial são, antes de tudo, a consciência política e o enfrentamento. Por fim, antes dos créditos, cita-se, vindo bem a calhar, “a revolução começa com os desajustados”, frase do escritor H. G. Wells, autor, entre tantas obras, de “Homem invisível”, a “Guerra dos mundos” e “A máquina do tempo”.

O filme de Fuller, contrariamente, não é revolucionário; declarando-se, logo na abertura, favorável ao imperialismo francês no Vietnam, o filme revela-se uma apologia do capitalismo, com as personagens combatendo, com armas nas mãos, o comunismo, apresentado enquanto ditaduras, levadas adiante por Josef Stalin, Mao Tse Tung e Ho Chi Minh. Na trama, um grupo de soldados, entre os quais há franceses, alemães, chineses e americanos, inclusive um oficial negro, vivido pelo cantor Nat King Cole, assumem a missão de explodir um depósito de armamentos do governo chinês, guiados, no território, por certa mulher, mestiça de chineses e europeus, quem goza de prestígio entre os soldados comunistas, especialmente das atenções do alto comando, por traficar bebidas e oferecer favores sexuais. Ela tem um filho, cujo pai é, justamente, o capitão do grupo; entretanto, embora ainda se amem, tornaram-se inimigos porque o oficial, insensatamente, abdicou da paternidade devido aos traços chineses, pouco acentuados na mãe, mas bastante marcantes na criança. Relutantemente, a protagonista aceita trabalhar com o ex-marido em troca da cidadania americana para o filho, quem, segundo ela, cresceria em liberdade nos Estados Unidos e não, na China; com tal roteiro, o filme não passa de propaganda anticomunista do imperialismo, bastante rasa e alienante, contudo, a cenografia é fantástica, conforme toda obra de Samuel Fuller, além de se discutir, com veemência, o racismo.

Em “No umbral da China”, Fuller antecipa discussões levadas adiante em “Cão Branco”, talvez, seu melhor filme; além do protagonista superar o racismo contra os chineses, assumindo e amando o filho no final da história, o grupo de soldados, vale lembrar, forma-se por várias nacionalidades e com personagem negra, principalmente, convencendo o capitão a mudar seus pontos de vistas retrógrados e desumanos, mostrando um negro estadunidense mais inteligente, gentil e altruísta do que o compatriota branco. Quanto à cenografia, conforme os demais filmes do mesmo diretor, o espectador assiste a verdadeiras coreografias nas cenas de ação, quando os combatentes parecem dançar; há oposições contundentes, por exemplo, na morte de vários soldados, com o diretor complexificando expectativas futuras e a dura realidade dos campos de batalha. Soma-se a isso, a bela canção tema, entoada pelo próprio Nat King Cole, com a letra bastante poética e música melodiosa, contrapondo-se às imagens chocantes das cidades em ruínas e às mortes a sangue-frio; em termos formais, o filme se impõe, revelando-se, nesse tópico, a crise da discussão sobre o gosto.

Diante dos contrastes de Fuller, questiono-me, afinal, se eu gostei de “No umbral da China”. Gostei bastante; cheguei, inclusive, a me emocionar em várias passagens, apesar da ideologia, quase idiota, pró-imperialista e anticomunista.

Toda obra de arte tem, pelo menos, dois aspectos: (1) o ideológico, fruto dos diálogos com a política da época, relevando-se, assim, a arte enquanto superestrutura, ou seja, como reflexo das relações econômicas – no caso do filme de Fuller, verificam-se propagandas do sistema capitalista, financiadas pela indústria cultural –; (2) o semiótico, mas nos referimos, nesse tópico, apenas à semiótica da expressão, responsável pelo filme enquanto texto segundo determinada linguagem, no caso, a linguagem cinematográfica, e não, a semiótica do conteúdo, em que os aspectos ideológicos, necessariamente, se manifestam. O gosto, portanto, não se pauta somente por um critério, pois todo texto, e não apenas as obras de arte, constituem-se, semioticamente, por vários aspectos; embora detestável em sua apologia do imperialismo, em termos formais, “No umbral da China” é fantástico; contrariamente, “A caçada do futuro”, mesmo deixando a desejar em termos de atuação, cenografia, trilha sonora, apresenta análises políticas bem mais interessantes, próximas da realidade histórica, inclusive, no respeitante às formas de luta.

Para concluir, em regra, cineastas excessivamente ocupados com aspectos formais tendem a se aproximar da direita, ora enfaticamente, feito Leni Riefenstahl e Alfred Hitchcock, ora menos, feito Stanley Kubrick; afastando-se dos vieses principais da indústria cultural, boa parte do cinema progressista se refugia nos considerados filmes B, tais quais filmes underground, de terror ou ficção científica. Em vista disso, ideologia e expressão artística raramente se combinam com perfeição, como nos cinemas de Elio Petri, Ettore Scola, Liliana Cavani, Sergio Leone, Jean-Luc Godard, Carlos Saura, Cacá Diegues, Glauber Rocha, Rogério Sganzerla, Satyajit Ray ou Akira Kurosawa.

https://causaoperaria.org.br/2024/filmes-bons-filmes-ruins/

 

 

 

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Chapolin Gremista
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CINEMA

Borat e a campanha sionista contra os muçulmanos

Matéria do Mintpress News chama atenção para o papel do personagem em meio à campanha ideológica contra os muçulmanos.

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Um dos canais amplamente usados pela propaganda sionista são os filmes hollywoodianos. Um exemplo claro é a frequência de superproduções que abordam o sofrimento dos judeus na Alemanha nazista. Diante de tantas tragédias humanas que poderiam ser abordadas no cinema, o holocausto judeu aparece numa quantidade impressionante de filmes, como se fosse um assunto que não pode ficar muito tempo fora dos holofotes. Nesse cenário se insere o personagem Borat, criado e interpretado por Sacha Baron Cohen.

Judeu praticante, com forte inclinação sionista, Cohen criou um personagem caricato que se apresenta como sendo do Cazaquistão e manifestando posições acentuadamente machistas e antissemitas. Denuncia do Mintpress News aponta que Cohen trabalhou junto com CIA e Pentágono na produção do personagem, que teve seu momento de maior destaque no filme “Borat – O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América”. O filme teve enorme bilheteria nos Estados Unidos e na Europa em 2006, no auge da chamada “Guerra ao Terror”, chegando a ser indicado para o Oscar de “Melhor Roteiro Adaptado”, entre outras premiações.

Como parte da campanha islamofóbica que serviu de apoio para a invasão do Afeganistão e do Iraque, o filme apresenta o suposto cazaque como alguém dotado de preconceitos e hábitos atrasados, os quais aparenta reproduzir inocentemente. Para isso, Cohen se aproveitou para inventar um Cazaquistão onde o ódio aos judeus seria quase como um esporte nacional. O filme mostra inclusive uma suposta tradição anual chamada “a corrida do judeu”, onde os judeus aparecem retratados com traços grotescos. Parodiando a Festa de São Firmino que ocorre na Espanha, os touros são substituídos por judeus, que são atiçados pelo público com maços de dinheiro.

Justo o Cazaquistão, que tem uma grande comunidade judaica, com diversas sinagogas e escolas judaicas. O governo do país chegou a fazer uma campanha para mostrar ao mundo o quão diferente era a realidade da caricatura propagada por Cohen, porém é muito complicado disputar com o alcance de Hollywood. Porém, uma série de representações muçulmanas são destacadas no filme, que finalmente tinha essas populações na sua mira. Um exemplo são os minaretes, que são torres de mesquitas, uma das características mais típicas da arquitetura muçulmana.

Cohen também interpreta outros personagens islâmicos, que têm em comum o machismo e um antissemitismo muito acentuado. O principal escritor dos projetos de cinema e televisão de Cohen, Lee Kern, tem sido um entusiasta do genocídio que ocorre atualmente na Palestina. No final de 2023, co-organizou o evento “Israel We F*cking Love You” (algo como “Israel Nós Te Amamos Pra C…”). Em novembro, Cohen atuou diretamente para pressionar o TikTok a bloquear comentários críticos a “Israel” na rede social, tendo já atuando em parceria com a sionista Liga Anti-Difamação.

Ou seja, um judeu fazer uma caricatura aberrante de um muçulmano é engraçado, é humor. Já o contrário é até difícil de imaginar, pois nem críticas sérias e fundamentadas escapam da censura sob o rótulo do “antissemitismo”. Manifestações pedindo cessar-fogo são “antissemitismo”. Imaginem se um comediante muçulmano conseguiria lançar um filme mostrando os judeus de forma caricata e expor o filme em uma quantidade gigantesca de salas de cinema como foram os filmes com o personagem Borat. Apresentar os muçulmanos como seres humanos primitivos se encaixa perfeitamente na campanha de encobrimento dos crimes de “Israel”, que aparece na propaganda como super civilizado, amigo dos homossexuais e da tecnologia.

https://causaoperaria.org.br/2024/borat-e-a-campanha-de-desumanizacao-dos-muculmanos/

 

 

 

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Пауло Витор

Estaria mentindo se eu não dissesse que "Borat" foi um dos filmes hollywoodianos mais engraçados que já vi.

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Chapolin Gremista

É um filme muito engraçado, mas é propaganda.

 

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Coronel Redl é um filme de 1985 dirigido pelo cineasta húngaro István Szabó, com o ator Klaus Maria Brandauer no papel principal.

É livremente inspirado na peça de teatro do dramaturgo inglês John Osborne, “A patriot in me”, sobre a figura de Alfred Redl, oficial do exército austro-húngaro nos anos que antecedem a I Guerra Mundial.

Alfred Redl é uma figura histórica. Sua biografia na internet o retrata como um traidor de sua pátria, um espião do império russo, que trabalhava somente por interesse financeiro.

O foco de Szabo não está nessa linha de representação. Sua abordagem visa a conjuntura histórica tendo como cenário uma instituição militar decadente em um império igualmente em declínio.

Ele utiliza a figura de Redl para contar essa história, em uma espécie de biografia de um sujeito que sobe aos postos mais altos da hierarquia militar.

Conhecemos o personagem desde criança, quando entra na carreira militar indicado por um professor que fica sensibilizado por um poema em elogio ao imperador.

Ele é filho de camponeses católicos. Com o passar dos anos, sua lealdade indiscutível ao exército e ao sistema e sua capacidade de fazer aliados ajudam sua escalada.

Naqueles anos, os exércitos permitiam que somente nobres assumissem postos de comando de alta patente. 

Tal lealdade mostra o personagem negando sua origem camponesa, tendo vergonha desse início tão limitado, apesar de nunca ser aceito completamente pelos nobres com quem passa a conviver. Mostra também conflito de classes e como o personagem tenta fugir dele.

Esse é o embate dramático principal no grande filme de Szabo, que faz com que o personagem seja ambíguo. Por mais que se esforce, ele sabe que não pertence.

Além disso, há um elemento a mais que também entra em choque com a rigidez disciplinar do exército: Redl é homossexual, condição que é aparentemente tolerada, desde que não seja abertamente declarada, visto que pode ser usada contra ele.

Com o passar do tempo, Redl, como não poderia deixar de ser, vê suas ilusões infantis sobre o império serem quebradas pela corrupção, espionagem, disputas de poder e planos de guerra.

As decepções acumulam-se até ele se tornar bode expiatório nos planos do próprio arquiduque Franz Ferdinand. A origem social e a sexualidade finalmente são usadas contra ele.

O ponto de vista do filme é de Redl, informado a nós que assistimos já nas primeiras cenas. São seus olhos que veem o mundo. Mas o filme é sobre um indivíduo que abandonou sua classe social, sem, no entanto, achar outra morada, em uma conjuntura histórica de grande mudança.

https://causaoperaria.org.br/2024/coronel-redl-e-a-decadencia-dos-imperios-sob-o-capitalismo/

 

 

Edited by E.R
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Chapolin Gremista
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COLUNA

Veneno para as Fadas, de Carlos Henrique Taboada

"Com essa interessante discussão, Veneno para as Fadas pode até ser um filme pequeno, mas aborda seu tema de maneira gigante"

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Veneno para as Fadas (Veneno para Las Hadas, 1986) é um filme de produção mexicana dirigido por Carlos Henrique Taboada, cineasta conhecido por filmes do gênero terror.

A película ganhou alcance internacional pelo enredo que conta a história de duas meninas, colegas de classe, que constroem uma relação doentia, na qual uma submete a outra a partir de ameaças e de chantagens.

Verônica (Ana Patrícia Rojo) é uma órfã, criada pela avó idosa e doente, mas de imaginação viva e rebelde, aguçada pelas histórias sobre bruxas contadas pela empregada da família. Flávia (Elza María Gutierrez) é a mimada e ingênua filha única de um rico empresário.

As duas se encontram na escola. Verônica conta a Flávia que é uma bruxa má, capaz de fazer feitiços que matam pessoas. Circunstâncias da narrativa fazem Flávia acreditar e temer Verônica. Percebendo que consegue sugestioná-la, Verônica aumenta suas exigências, fazendo com que Flávia entre em uma espiral de terror.

Na busca por críticas sobre o filme, encontrei textos que se concentram em uma análise psicológica da relação entre as meninas, sugerindo que Verônica é psicopata.

Aqui, buscarei fazer um exercício de análise pelo ângulo da crítica materialista.  Trata-se de um filme pequeno muito bom que se apoia no desempenho das duas atrizes crianças, com resultados notáveis.

É sem dúvida um filme político que usa elementos épicos com primor e que consegue, como resultado, uma narrativa ambígua, focada na audiência e em sua capacidade entender como o diretor utiliza o recurso do ponto de vista.

A princípio, parece que estamos diante de uma história em que se estabelece um vilão e uma vítima, como em uma novela mexicana ou em um filme hollywoodiano. De fato, após uma hora e meia de filme, ficamos a nos perguntar como Flávia consegue ser tão medrosa.

Se, no início, sua ingenuidade cativa e podemos até sentir pena de sua situação, no final do filme já a classificamos de burra e estúpida. Ao mesmo tempo, não deixa de ser surpreendente a vilania de Verônica e sua incapacidade de sentir empatia pela amiga.

E é aí que mora o perigo da análise superficial deste filme: focar na polarização entre as duas meninas e deixar-se identificar por uma ou outra, sem estabelecer uma distância mínima que permita uma interpretação mais concreta do conflito ali apresentado.

Esse é o segredo que Taboada nos convida a decifrar. Há várias maneiras com as quais ele trabalha e nos obriga a desconfiar da “polarização” entre as meninas. Uma delas é a representação dos adultos no filme. Eles nunca aparecem como personagens, mas como tipos: a mãe, o pai, a avó, a professora, a empregada.

Taboada evita mostrar seus rostos e só os conhecemos pelos diálogos que têm com as meninas. Isso faz com que o mundo delas esteja à parte, desvinculado da realidade concreta.

Fora isso, o diretor nos dá inúmeras pistas de que Verônica está criando histórias para assustar Flávia. Tudo que acontece é esclarecido para quem assiste ao filme, apesar de Flávia não ter as mesmas informações.

A câmera de Taboada acompanha as meninas, mostrando que há um observador, ou narrador, da história que elas não percebem. Sua função e nos mostrar o que elas ignoram.

Esse narrador, que não está em voice over, mas nos elementos cinematográficos do filme, nos convida a não tomar o partido nem de uma, nem da outra, mas a manter certa distância do narrado. Há algo de brechtiano nessas escolhas formais, que fazem o filme crescer em termos de complexidade.

Outro ponto a ressaltar é a escolha de crianças para dar vida às personagens. A análise que prefere usar psicanálise rasa para entender as meninas passa longe do que realmente está em jogo.

O uso das crianças é simbólico. Faz com que a história de Verônica – a bruxa má – e de Flávia – a crente – ganhe um significado muito interessante.

A questão que se coloca é: somente crianças acreditam em situações como essa apresentada no filme? A resposta é não. Sabemos que há inúmeras formas de se criar polarizações falsas entre adultos que caem o tempo todo, à direita e à esquerda igualmente.

As polarizações entre indivíduos disfarçam a natureza dialética dos conflitos e a luta de classes. Desloca a contradição para trivialidades.

Usar as crianças para representar esse jogo mostra apenas o quão infantil é essa polarização irracional que perpassa todos os níveis da subjetividade adulta dentro do sistema capitalista, construída incessantemente pelos meios de comunicação de massa, pelas igrejas e até mesmo pela academia.

Faz parte da fórmula de dominação das burguesias. Vemos isso no identitarismo, nas religiões e crenças cooptadas, no jornalismo anticorrupção ou antiterrorismo. Ah, o terror!

O problema é que essas fantasias acabam por gerar violências e injustiças inomináveis. Aí, sim, adultos verdadeiramente psicopatas convencem adultos infantis, que não conseguem fazer distinção entre imaginação e a realidade concreta.

Com as crianças e o narrador implícito em Veneno para as Fadas, há uma denúncia da irracionalidade do comportamento de adultos infantilizados, que retroagiram a um estado anti-iluminista, próprio da barbárie, motivados por medos infundados e por ressentimento.

Com essa interessante discussão, Veneno para as Fadas pode até ser um filme pequeno, mas aborda seu tema de maneira gigante.

https://causaoperaria.org.br/2024/veneno-para-as-fadas-de-carlos-henrique-taboada/

 

 

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BAFTA 2024

VENCEDORES

. Melhor Filme - Oppenheimer

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. Melhor Ator - Cillian Murphy (Oppenheimer)

. Melhor Atriz - Emma Stone (Pobres Criaturas)

. Melhor Direção - Christopher Nolan (Oppenheimer)

. Melhor Ator Codjuvante - Robert Downey Jr. (Oppenheimer)

. Melhor Atriz Coadjuvante - Da'Vine Joy Randolph (Os Rejeitados)

Fonte : https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2024/02/18/bafta-2024-oppenheimer-e-o-grande-ganhador-em-premio-britanico-veja-vencedores.ghtml

 

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Vídeos de alguns vencedores do BAFTA 2024.

 

 

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Chapolin Gremista
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DIA DE HOJE NA HISTÓRIA

22/2/1900: 124 anos de Luis Buñuel, uma vanguarda no cinema

Luis Buñuel Portolés foi grande cineasta espanhol e principal expoente do surrealismo na sétima arte

 

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No dia 22 de fevereiro do ano de 1900, nascia, em Calanda, província de Teruel, na Espanha, Luis Buñuel Portolés, grande cineasta espanhol e principal expoente do surrealismo na sétima arte.

Filho mais velho de sete irmãos, seu pai era um proprietário que fizera fortuna em Cuba com um negócio de ferragens e sua mãe dona de casa.

Estudou em um colégio de jesuítas em Saragoça, recebendo a formação religiosa que se tornaria marcante em seus filmes. Em 1915, quando na adolescência, perdeu a fé e se tornou ateu, sendo expulso de seu colégio.

Em 1917, mudou-se para Madri para estudar agronomia, permanecendo na cidade até 1925. Lá, indo morar na Residência de Estudantes, acabou por fazer contato pela primeira vez com as correntes artísticas e literárias de vanguarda: cubismo, dadaísmo e surrealismo por meio dos artistas que conheceu, a saber, Federico Garcia Lorca e Salvador Dalí. Acabou abandonando a faculdade de agronomia e indo cursar filosofia e letras, graduando-se em 1924.

Durante o período, fundou o primeiro cineclube espanhol em 1920 e, em 1922, publicou os primeiros textos literários, influenciados por Ramón Gomez de la Serna.

Quando chegou em Paris, capital cultural da Europa, em 1925, estudou cinema e trabalhou como assistente de diretores renomados como Jean Epstein.

Em janeiro de 1929, junta-se ao pintor Salvador Dalí, notório representante do surrealismo nas artes plásticas, e, utilizando do método “cadáver esquisito”, escrevem o roteiro do filme Um cão andaluz. Buñuel gravou o filme em 15 dias durante a primavera, sendo estreado em 6 de junho em Paris perante a nata da sociedade e da intelectualidade francesa.

O filme foi um sucesso e um escândalo e, durante vários meses, esteve em cartaz no Studio 28. Toda a estética surrealista (burros podres dentro de pianos de cauda, mãos cortadas, metamorfoses visuais etc.) criava sensação e espanto. Buñuel afirma que a cena inicial da navalha cortando um globo ocular provocava desmaios na plateia, tendo mesmo chegado a ocasionar um aborto numa espectadora.

A dupla é prontamente admitida no grupo surrealista de André Breton, passando a frequentar as suas reuniões semanais e a cumprir escrupulosamente os seus ditames. 

Seu filme posterior, L’Âge d’Or, subsidiado pelo visconde de Noailles, é fortemente anticlerical e, quando da exibição, cria um enorme escândalo por parte da extrema direita francesa (a sala de cinema é atacada) e da burguesia parisiense (o visconde de Noailles foi ostracizado).

Em 1936, com o início da Guerra Civil Espanhola, Buñuel mudou-se para os Estados Unidos, trabalhando durante um período no Museum of Modern Art (Nova Iorque) e em Hollywood, sendo então contratado pela Metro Goldwyn Meyer.

Em 1946, foi para o México e, finalmente, em 1950, recupera a autenticidade de sua arte com o filme Los Olvidados, sobre a vida dos meninos de rua do México, filme em que inseriu vários elementos surrealistas, sendo muito aclamado pela crítica.

Buñuel morreu na Cidade do México em 29 de julho de 1983 por causa de um grave problema com a diabete e câncer no fígado.

Nenhum outro cineasta aboliu com tanta desenvoltura a fronteira entre a realidade e o mundo dos sonhos. Buñuel não entregava uma mensagem pronta aos espectadores, mas instigava-os a participar ativamente no desenvolvimento dos significados de sua obra.

https://causaoperaria.org.br/2024/22-2-1900-124-anos-de-luis-bunuel-uma-vanguarda-no-cinema/

 

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SAG AWARDS 2024

MELHOR ELENCO DE FILME :
. Oppenheimer

MELHOR ATRIZ DE FILME :
. Lily Gladstone (Assassinos da Lua das Flores)

MELHOR ATOR DE FILME :
. Cillian Murphy (Oppenheimer)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE DE FILME :
. Da’Vine Joy Randolph (Os Rejeitados)

MELHOR ATOR COADJUVANTE DE FILME :
. Robert Downey Jr. (Oppenheimer)

Fonte : https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/sag-awards-2024-veja-vencedores-da-30a-edicao-do-premio/

 

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